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  • Jordana Schneider

Nossa vida não é patrimônio público

Desde que começou essa pandemia, tenho me anestesiado com boa música, bons filmes e séries, e agora, retomando bons livros. É de se esperar que se a pessoa gosta de escrever, ela gosta de ler. E assim como o Pole Dance, ler exige disciplina e dedicação já que não é sempre que estamos tranquilas ou num ambiente tranquilo o suficiente pra se deixar levar por um livro. E confesso que nessa pandemia, com toda essa sensação estranha de não saber como será tudo depois - ou até se haverá um depois - voltei para os meus livros da zona de conforto e queria muito dividir um deles com vocês.



Mulheres não são chatas, mulheres estão exaustas! Acho que com esse título, o livro da editora Sextante dispensa apresentação e muito aprofundamento para te explicar o assunto. É um daqueles livros que você quer sair devorando e ler tudo num dia só, mas que te dá tanto pra pensar que você precisa fechá-lo por algumas horas e tomar um fôlego. Ele e a terapia me ajudam a enfrentar um dos dilemas pessoais mais difíceis que estou passando há anos, só para vocês terem noção de quão importante ele é para mim e deve ser para muitas outras mulheres. A autora, Ruth Manus, é uma das queridinhas do meu Instagram pessoal. Super crítica com diversos assuntos, assume seus privilégios e admite que erra também, e é nesse mesmo tom que ela escreve seus livros.


Nesse livro, a Ruth Manus nos explica que a vida da mulher não é patrimônio público, que cada um vem dar a sua opinião - sem termos pedido - e depois vai embora com a sensação de dever cumprido. Que dever é esse que acham que estão cumprindo? Dever de encher o saco e achar que temos que viver nossa vida do jeito que eles acham melhor? E quem são eles? São homens, infelizmente às vezes mulheres, familiares, amigos e quem mais achar que entende da nossa vida melhor que nós. Eles são que nem mato e estão em todo lugar. E são o motivo básico de muitas vezes escondermos o simples fato de praticarmos Pole Dance.



Simples fato sim, pois embora o Pole Dance seja incrível, ele nada mais é que um esporte, uma dança, uma profissão, um passatempo ou qualquer outra coisa que você quiser que seja pra você. E é tão desgastante ficar desconversando quando perguntam se você faz alguma atividade física, ou quando perguntam como você fez aquele hematoma enorme na sua perna, ou o porque de seu abdômen e braços estarem tão definidos se você já disse que não vai pra academia. É um saco ficar se escondendo e não poder dizer aos quatro ventos que você finalmente conseguiu fazer aquele movimento que vinha tentando há meses! E é um saco ter um Instagram da "vida normal" e um do Pole porque o local que você trabalha pediu para você não comentar com ninguém ou porque você achou melhor se privar de ter que dar explicações na família, na igreja, aos amigos do namorado/marido.



Com o país retrocedendo do jeito que tá, nem dá pra usar a frase "em pleno século XXI isso ainda acontece". Mas em plena geração de mulheres que foram criadas para serem independentes (na realidade da maioria das mulheres que fazem Pole aqui do blog) ainda temos as que se escondem porque o namorado/marido não gosta muito que fiquem se exibindo, as que poupam os pais da geração passada que não entenderiam o que é o Pole, as que não contam na igreja abertamente embora todos já saibam e julguem silenciosamente, e a lista é grande. Não estou julgando nem condenando, também estou nos exemplos que dei. Mas quando a gente não se posiciona defendendo aquilo que acreditamos e quem somos, a gente finge ser quem não é.



No início desse blog há pouco mais de um ano, quando percebi que não estava fazendo nada que prejudicasse outras pessoas e me escondendo à toa, surgi aqui pra dizer que tá tudo bem e que não precisamos esconder o Pole Dance, só explicar ele para as pessoas. E sei que às vezes dá vontade de escolher a batalha que queremos lutar porque estamos exaustas! E pode ser que naquele momento, esteja tudo bem manter a saúde mental. Mas até quando vai estar tudo bem esconder parte do que você faz e de quem você é? Viver essa vida de criminoso, se escondendo e guardando um segredo, é besteira pois é Pole Dance. E não deixe de contar com preguiça ou medo de ter que dar explicações, porque você é obrigada ou se sente obrigada a dar alguma explicação?


Nas considerais finais, a brilhante autora escreveu um trecho que tenho vontade de escrever na parede do meu quarto para nunca mais esquecer:


Estabeleça limites. Delimite claramente até onde as pessoas podem ir na sua vida. A pergunta indispensável para isso, como bem nos lembra Rebecca Solnit, é:"Por que você está me perguntando isso?"
Em muitas situações nas quais me angustiei, me constrangi, briguei e argumentei, eu podia ter dito apenas: "Por que você está me perguntando isso?" É preciso acabar com essa ideia de que a vida da mulher é patrimônio público.
Ninguém tem o direito de nos invadir com perguntas - muito menos com afirmações - que nos expõem, nos embaraçam e fazem com que nos sintamos mal na frente dos outros (ou com nós mesmas).
Estabeleça qual a linha que as pessoas não podem ultrapassar quando se trata da sua vida. E defenda-a, porque isso é um direito seu.

Vamos ler isso até virar um mantra? E aplicar isso em todas as áreas de nossa vida, no Pole, na família, no trabalho...


#poledance #poledanceparainsistentes #ruthmanus

Trechos específicos do livro que foram inspiração para esse texto:

"Vida de mulher não é patrimônio público" nas páginas 72 a 74.

"Estabeleça limites" na página 179.

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